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Abril
24
2019

Whatsapp: Variações linguísticas entre indígenas é tema de pesquisa na UFGD

  Atualizada: 25/04/2019

Linguagens em aplicativo de celular é tema de pesquisa na UFGD



Letramento digital móvel Guaranis UFGD
Quem não falava a língua materna passou a se interessar após serem colocados no grupo, afinal queriam entender o que estava sendo compartilhado

Não há dúvidas de que o aplicativo de mensagens instantâneas WhatsApp veio para facilitar a vida das pessoas. Atualmente, são 1,5 bilhão de usuários em todo o mundo que trocam 65 bilhões de mensagens diariamente. Essa ferramenta que tanto facilita a comunicação é utilizada por diversos grupos sociais e a as comunidades indígenas não ficam de fora.

Acompanhando as transformações que a sociedade vive, indígenas Guarani e Kaiowá de Mato Grosso do Sul estão fazendo uso de novas tecnologias não apenas para se comunicar, mas também para promover e preservar suas línguas e culturas. Isso despertou o interesse do professor da UFGD Andérbio Márcio Silva Martins, que atualmente desenvolve a pesquisa “Letramento Digital Móvel entre os Guarani de Mato Grosso do Sul: um estudo sobre as variações linguísticas registradas no WhatsApp”.

A pesquisa faz parte do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) e conta com a participação do estudante do Teko Arandu Flaviano Franco, indígena da etnia Kaiowá, morador da aldeia Amambai. Flaviano está se graduando na área de Linguagens no curso de Licenciatura Intercultural Indígena e optou, em conjunto com o professor, por trabalhar com o recorte de uma família extensa que vive, em sua maioria, na mesma aldeia. Como se trata de um grupo da família, as conversas giram em torno do cotidiano da aldeia. “Eles evitam discussões políticas, esportivas e religiosas, comuns em outros grupos do Whats, e focam na realidade da família, querendo saber como estão, se estão precisando de algo, além de divulgar informações de acontecimentos na aldeia e no município”, explica Andérbio.

Peculiaridade

Quando estão na Universidade, comentam as aulas, divulgam informações do curso, fazem piadas e marcam reuniões, como qualquer usuário do aplicativo. A peculiaridade, neste caso, está na troca de códigos linguísticos: ora português, ora guarani. Como se trata de uma comunidade bilíngue, as duas línguas acabam tendo espaço nas redes sociais. “Notamos padrões de escrita do guarani adaptados ao meio digital, como reduções, abreviações, memes e figuras”.

“Além das variações de pronúncia ou escrita pra uma mesma coisa, que acontece entre municípios, outra coisa me chamou a atenção. Percebi que indígenas que não falavam a língua materna passaram a se interessar por ela depois de serem colocados no grupo da família, queriam entender o que estava sendo compartilhado”, afirma Flaviano, explicando que algumas dessas pessoas chegaram a se deslocar de Dourados atá Amambai para aprenderem guarani. “E a maior dificuldade está na conexão. Na aldeia não chega sinal de wifi, dependemos de internet de dados e às vezes algumas pessoas ficam uns dias sem participar do grupo porque acabou o pacote de dados”, complementa.

Para o professor Andérbio, o uso dessas tecnologias é um marco de liberdade de expressão e de uso irrestrito das mídias sociais em benefício próprio e da própria comunidade. “Acredito que mais do que isso, ajuda a fortalecer a identidade indígena com o uso da língua não apenas na modalidade escrita, mas também oral, uma vez que o aplicativo dispõe dos dois mecanismos”.

A coleta de dados para essa pesquisa já foi finalizada e alguns aspectos analisados. A próxima etapa é fazer a descrição e análise linguística de todos os dados coletados.

Indígenas na pesquisa

O TCC de Flaviano Franco vai ser sobre o ensino da Língua Portuguesa como segunda língua nas escolas indígenas. “Hoje o português é trabalhado como primeira língua e não está sendo muito eficiente. Pretendo encontrar caminhos para facilitar a aprendizagem, para trabalhar a Língua Portuguesa nas escolas indígenas de outra forma”. Mas Flaviano não vai parar por aí. Um dos objetivos do acadêmico é ingressar na pós-graduação da UFGD e continuar trabalhando em prol da Língua Guarani.

“O guarani precisa ser registrado e passar por uma manutenção. A língua materna está morrendo dentro das famílias, há palavras que foram substituídas pelo português e, mesmo existindo em guarani não são usadas por falta de costume. Quero fazer pós na área de linguagens e no que eu puder ajudar pesquisando, eu vou fazer”, finaliza Flaviano.

Atualmente, a UFGD tem mais de 450 alunos indígenas atuando em algum dos programas de Iniciação Científica. Saiba mais sobre esses programas pelo link: https://portal.ufgd.edu.br/secao/iniciacao-cientifica-propp/programas-de-iniciacao-cientifica.

Já na Pós-graduação, estudam atualmente cerca de 30 indígenas em cursos como Mestrado em História, Entomologia e Biodiversidade, Antropologia, Geografia, Letras, Territorialidade e Educação, e tammbém no Doutorado de História e Geografia. Indígenas egressos da UFGD também já se formaram mestres e doutores pelo Museu Nacional, pela Universidade de Brasilia entre outras importantes instituições brasileiras.

Jornalismo ACS-UFGD




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