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Abril
03
2023

Nas aldeias de Dourados, três grupos implantam sistemas de produção agroecológica

  Atualizada: 03/04/2023
Iniciativa dos produtores indígenas recebe apoio da UFGD por intermédio do projeto de extensão Ânimo, do Rotary Caiuás, da BRFoods e da APOMS. Projeto busca mais parceiros, dentro e fora da universidade, para dar suporte à produção

Cultivar frutas, legumes e hortaliças para comer bem e para comercializar. Esse era o sonho de Nelson, Ivanusa e outros companheiros indígenas. No entanto, por mais simples que possa soar para algumas pessoas, este sonho parecia impossível de se tornar realidade, para quem não tinha consultoria técnica, acesso à água e irrigação em suas terras e não sabia onde vender seus produtos. O projeto de extensão Ânimo – Ñande Retea’e possibilitou que esses produtores recebessem o apoio necessário para iniciar o cultivo em sistema agroecológico e comercializassem o excedente de sua produção.

Desde 2021, vinte e cinco famílias participaram das atividades de imersão e foram apoiadas no plantio de suas terras. Como resultado, três núcleos de produção agroecológicas foram consolidados nas aldeias de Dourados. Um dos núcleos de produtores é a família de Nelson Ávila da Silva, o segundo núcleo é a família de Ivanusa da Silva Pedrosa, e o terceiro grupo, chamado Tokoha Karai, é formado por oito mulheres. O cultivo em sistema de agrofloresta incentiva a produção de hortaliças e legumes em harmonia com o plantio de árvores frutíferas e nativas, o que garante alimento para a população e para a fauna local, além de auxiliar a estabilizar o microclima e o ciclo da água. Além disso, o cultivo é feito em mutirões, em que os grupos se auxiliam, resgatando a coletividade e harmonia que caracterizam a cosmologia indígena e os valores comunitários.

A gente está desenvolvendo o trabalho na roça utilizando o conhecimento tradicional indígena e o conhecimento científico. Antes de desenvolver os trabalhos, a gente chama os mestres tradicionais para abençoar a terra, e o primeiro plantio é do milho, conforme nosso etnoconhecimento. Depois vem o conhecimento científico, a avaliação das propriedades do solo, entre outras tecnologias", avalia Ivanusa da Silva Pedrosa.

Com este sistema, o grupo já produziu uma variedade de alimentos como salsinha, couve, repolho, pimentão, tomate, couve-flor, rúcula, beringela, e repolho verde e roxo. “Recebemos críticas de algumas pessoas, que dizem que estamos produzindo hortaliças e que isso não é alimento da cultura indígena. Plantar hortaliças foi o meio que escolhemos para cultivar a terra, recuperar o solo, resgatar as matas, preservar nossas sementes crioulas e a biodiversidade do nosso território, e ao mesmo tempo ter um bom alimento e gerar renda para nossas famílias”, argumenta Nelson Avila da Silva. Ele é o responsável por representar o Núcleo de Produtores Indígenas (NUPOIN) junto à Associação de Produtores Orgânicos de Mato Grosso do Sul (APOMS).


 

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Grupos de mulheres selecionando mudas para plantio
 

AÇÃO COLETIVA DEU INÍCIO AO PROJETO

O ponto de partida do projeto Ânimo foi a polêmica afirmação do economista Eduardo Moreira, em um programa de televisão nacional: “em Dourados, as pessoas comem restos de comida, moram em lugares que não tem água, sem rede esgoto e sem rede elétrica”. Apesar da afirmação do economista ter sido rechaçada pelas autoridades locais, é fato que não há sistema de saneamento básico, nem vias públicas ou sequer transporte público nas aldeias do município. A maioria das residências nas aldeias não tem água encanada e muitas famílias vivem em moradias precárias, sem acesso a energia elétrica. Diante da comoção nacional, Moreira teve a iniciativa de captar recursos por meio de uma ação coletiva, com apoio do docente do curso de Direito da UFGD, professor Tiago Botelho. A arrecadação teve como objetivo inicial captar cerca de 150 mil reais para aquisição de cestas básicas, que seriam distribuídas para a população indígena de Dourados durante o período de lockdown na pandemia de covid, em 2021.

No entanto, a arrecadação chegou aos R$ 500 mil, e com este valor foi possível passar a atuar não apenas contra a fome imediata, mas em projetos de produção de alimento e autossuficiência nas aldeias. Para iniciar essa atuação mais ampla, os recursos passaram a ser geridos pela organização não governamental Gaia. Uma equipe de professores ligados à UFGD submeteu um projeto a esta ONG, visando a perfuração de poços, instalação de sistemas de irrigação e de implantação de áreas de produção de alimentos em sistema agroflorestal com grupos de produtores indígenas.

Em um segundo momento, os produtores indicaram que estavam com dificuldades de comercializar seus produtos. Como eles têm pequenas propriedades, não conseguem produzir em grandes quantidades, conforme a necessidade dos comerciantes. Além disso, o valor de venda dos excedentes não garantia lucro. A venda direta ao consumidor seria uma forma de aumentar a renda, mas havia dificuldade em fazer o contato e gerenciar os pedidos dos clientes. Assim, surgiu a ideia de criar um aplicativo para celular por meio do qual os consumidores poderiam fazer o pedido com os produtos disponíveis. O programa também ajudaria os produtores a verificar a quantidade de solicitações de cada produto, monitorar a sazonalidade e quantidade dos legumes e hortaliças que devem ser colhidos e replantados, a precificar seus produtos, entre outros dados. Para viabilizar o desenvolvimento desse sistema computacional, o Rotary Clube Caiuás e o Instituto BrFoods também passaram a apoiar a iniciativa. No momento, os produtores comercializam seus produtos junto à COOPER APOMS e em feiras, mas os aplicativos desenvolvidos colaboram na gestão da produção, de comercialização e da gestão financeira.
 

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Os alimentos são vendidos para a APOMS e em feiras de Dourados, entre elas a feira no campus da UFGD.
 

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Horta da família do Nelson, em época de colheita


BUSCA DE PARCERIAS PARA ATINGIR A AUTONOMIA

Quando fizemos as primeiras cestas básicas para doação, tivemos o cuidado de formular uma cesta básica em que fosse respeitada a cultura alimentar dos povos Guarani, Kaiowá e Terena. Também tivemos atenção para que a cesta básica tivesse um aporte de proteína, o que não tem na cesta básica comum. Ainda, buscamos fornecedores entre os próprios indígenas, e encontramos entre eles famílias que já cultivavam legumes e hortaliças, que criavam galinhas, vendiam ovo, além do cultivo de milho e mandioca - cultivos tradicionais entre eles. Já no primeiro momento do projeto, na formulação e entrega das primeiras cestas básicas, percebemos que eles querem ajuda para produzir, não querem ser apenas recebedores de doações”, afirma o coordenador do projeto, professor Márcio Rogério da Silva.

O professor destaca que hoje não há condições para que essas famílias possam produzir e vender de forma autônoma, sem nenhum tipo de apoio ou parceria, porque as condições de vida e produção ainda são precárias. Ivanuza relata alguns dos desafios cotidianos: “antes do projeto, não tinha água na minha roça. Então, com a máquina do projeto, o Nelson foi lá e furou o poço. Daí, eu tinha que pegar água do poço e, com o regador, molhar as 300 mudas que tinha na horta. O trabalho era dar água todo dia, pela manhã e a tarde, para as 300 mudas. A gente chegou a montar o sistema de irrigação por gotejamento, mas não deu para terminar a instalação. Agora, deu uma descarga elétrica que quebrou a bomba de água. Então, a gente precisa de ajuda, de pessoas que saibam e que possam ensinar a dar essa manutenção na máquina, que ajude a instalar o sistema de irrigação e gotejamento, que ajude a dar assistência e orientação na roça”.

Márcio informa que o cultivo de alimentos demanda dedicação diária para ações como controle de pragas, verificação e controle da irrigação, replantio e colheita. Depois da colheita, tem o processo de venda e só então acontece o recebimento de valores - e por isso o potencial lucro só chega após semanas e até meses de trabalho. “Essa população é historicamente pauperizada, eles não tem uma reserva de dinheiro que possibilite esperar várias semanas sem comer, sem beber, sem comprar nada, para só depois receber algum lucro”, contextualiza Márcio. Diante dessa situação, muitos dos participantes do projeto estão trabalhando em serviços temporários ou empregos fixos na cidade, o que diminui muito o tempo disponível para se dedicar ao processo de produção e comercialização dos alimentos.

O coordenador do projeto enfatiza que o maior desafio hoje é garantir que algumas pessoas possam dedicar boa parte do seu tempo para a manutenção das roças. “Hoje precisamos de parceiros que garantam um suporte financeiro, uma bolsa mensal, para que essas famílias indígenas possam continuar o trabalho na roça e ao mesmo tempo pagar suas contas do mês, pagar as compras do mercado, uma roupa, um remédio, pagar uma manutenção no poço, entre outras despesas. Daqui há três anos, eles vão alcançar a autonomia e todos os envolvidos no projeto terão uma renda boa. Então, não vão mais precisar de bolsa, de cesta básica”, avalia o professor Márcio.

Empresas e entidades que queiram se engajar no projeto podem entrar em contato com o professor Márcio Rogério, pelo e-mail marciosilva@ufscar.br. Para acompanhar o dia a dia do projeto, acesse o Instagram @nande.reteae.

 

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Hortas servem para garantir alimento às famílias e também para oferecer uma fonte de renda
 

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Com o sistema de agrofloresta, as hortas são cultivadas de modo a restaurar a qualidade do solo e a diversidade de plantas
 

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O projeto ofereceu vários cursos e formações à comunidade indígena de Dourados
 



Jornalismo ACS/UFGD




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