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Agosto
07
2026

Dourados cresce e se reconfigura socioespacialmente: pesquisa aponta nova dinâmica urbana nas cidades médias

  Atualizada: 07/08/2026
Estudo ligado ao INCT/ReCiMe mostra que Dourados deixou para trás a lógica simples de “centro rico e periferia pobre”.

Dourados é hoje o segundo município mais populoso de Mato Grosso do Sul, com 243.368 habitantes, segundo Censo Demográfico de 2022, realizado pelo IBGE. Mais do que isso, exerce centralidade na porção sul do estado: articula serviços, comércio e infraestrutura que atendem uma rede regional que reúne um contingente populacional de cerca de 900 mil habitantes. Impulsionada pelo agronegócio, a cidade se conecta não apenas ao interior do estado, mas também a circuitos econômicos nacionais e globais.

 

Mas o crescimento de Dourados não é apenas demográfico ou econômico: ocorre uma modificação do “mapa” da cidade. Nas últimas décadas, novos bairros surgiram, loteamentos fechados foram implantados, conjuntos habitacionais foram instalados em diferentes áreas da cidade e a expansão urbana avançou significativamente. O que esse processo revela sobre a configuração da cidade?
 

Essa é uma das questões investigadas pela professora Maria José Martinelli Silva Calixto, da Faculdade de Ciências Humanas da UFGD, pesquisadora ligada ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia e da Rede de Pesquisadores sobre Cidades Médias (INCT/ReCiMe). Junto a pesquisadores de todo país, Maria José analisa as mudanças na reestruturação urbana de Dourados dentro de um debate mais amplo sobre cidades médias brasileiras.

 

Da centralidade única à cidade fragmentada

Conforme a pesquisadora, até o início da década de 1970, Dourados não apresentava uma configuração espacial tão demarcada entre áreas ricas e pobres. A área central, por exemplo, concentrava comércio, serviços e locais de convivência, como a praça pública, sendo o local onde diferentes grupos sociais circulavam e se encontravam.
 

A partir de meados dos anos 1970, políticas habitacionais federais, especialmente por meio do Banco Nacional da Habitação (BNH), começaram a reconfigurar o território urbano. Nesse período, a zona norte da cidade passou a concentrar os segmentos sociais de maior renda, enquanto novos conjuntos habitacionais e loteamentos populares ampliaram o tecido urbano. Pós anos 2000, o Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) implantou milhares de unidades habitacionais em áreas periféricas, muitas vezes distantes da área urbana consolidada, impondo dificuldades de acesso. 
 

Nesse período, também surgiram loteamentos fechados de alto padrão, especialmente na porção norte da cidade, alterando a configuração da periferia. Para viabilizar essa expansão, o poder público investiu na infraestrutura, como pontes e vias, permitindo a valorização imobiliária desses empreendimentos privados. Essa nova frente de expansão, contraditoriamente, se faz em direção à Reserva Indígena. “A maioria dos loteamentos fechados de padrão mais elevado são vizinhos da Reserva Indígena. Aliás, esses empreendimentos impõem uma barreira, deixando evidente que estão muito próximos, mas separados em todos os sentidos, inclusive, por um limite bem concreto: o muro”, explica a pesquisadora. Sobre essa temática, a professora participou de uma entrevista recente, que está disponível no Spotify, através do link: https://open.spotify.com/episode/4qEJNZQmuSQMm7vNNoLJYO?si=G0uCFouvTnyry9tutrx_Wg 

 

Periferias distintas

Segundo o estudo de Maria José, Dourados deixou de se configurar apenas pela lógica clássica de “centro rico e periferia pobre”. Hoje, existem periferias distintas: algumas com loteamentos fechados, infraestrutura qualificada e em plena valorização imobiliária; outras formadas por conjuntos habitacionais populares e áreas de ocupação consideradas irregulares. Essa configuração é analisada a partir do entendimento de uma lógica socioespacial fragmentária. Na prática, significa que a desigualdade continua presente, e até se aprofunda, mas aparece distribuída em diferentes pontos do território, tornando a estrutura urbana mais complexa.
 

“Ao mesmo tempo em que Dourados conta com uma moderna rede material, necessária à fluidez e à integração econômica, apresenta um quadro de profundas contradições socioespaciais. Principalmente com a última ampliação do perímetro (que praticamente triplicou o tecido urbano), parte das ‘disputas’ que ocorrem nas áreas de retomada indígena, se dão devido à expansão urbana, porque, com a expansão territorial, a área urbana praticamente invadiu a reserva indígena. E, nesse sentido, o processo que promove a integração da região à economia nacional e mundial, impôs dinâmicas de natureza contraditória, demarcando conflitos de várias ordens e caracterizando uma cidade, até certo ponto, bipartida, entre as porções Norte e Sul”, analisa a professora.  

 

Um processo nacional

O que acontece em Dourados, ainda que tenha suas especificidades, não é um caso isolado. Pesquisadores têm observado processos semelhantes em diversas cidades médias do Brasil, especialmente em contextos marcados pela expansão do capital imobiliário e pela interiorização do desenvolvimento econômico.
 

Esse debate integra as discussões da Rede de Pesquisadores sobre Cidades Médias (ReCiMe), que reúne estudiosos de diferentes universidades brasileiras e de países como Espanha, Chile, Argentina etc. A rede vem consolidando pesquisas comparativas sobre o papel das cidades médias na dinâmica urbana brasileira.
 

Recentemente, o grupo foi reconhecido pelo CNPq como Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Rede de Pesquisadores sobre Cidades Médias, ampliando o alcance e a relevância científica das investigações. A UFGD integra o Instituto por meio da professora Maria José Martinelli Silva Calixto.
 

A consolidação do INCT fortalece a produção de conhecimento sobre cidades que, como Dourados, ocupam posição estratégica nas redes urbanas regionais e nacionais. Compreender como esses centros urbanos se reconfiguram é fundamental para pensar políticas públicas, planejamento urbano e enfrentamento das desigualdades. Para conhecer mais sobre o INCT/Redime, acesse o site https://recime.com.br/a-recime-agora-e-um-inct/ ou o vídeo  https://www.youtube.com/watch?v=Yhbw5WgNlWE

Divisão de Jornalismo e Divulgação do Conhecimento - DJOC/DADIC/GABRTR/UFGD
 

recime

Professora Maria José (à frente, de preto), junto de alunos na Inauguração do núcleo INCT/ReCiMe na FCH/UFGD, com a presença do vice-diretor da FCH, professor Leandro Baller.
 

ReCiMe

Inauguração do núcleo INCT/ReCiMe na FCH/UFGD, com a presença do vice-diretor da FCH, professor Leandro Baller.
 

ReCiMe

inauguração do núcleo INCT/ReCiMe na FCH/UFGD, com a presença do vice-diretor da FCH, professor Leandro Baller.
 

mapa

Mapa produzido pela professora Maria José, sintetizando a expansão territorial da cidade de Dourados e suas reconfigurações
 



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