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Abril
28
2021

Decolonialismo Indígena: pesquisa de pós-doutorado na UFGD trata do rompimento com antigos preconceitos contra os povos originários

  Atualizada: 28/04/2021

Vítima de ataque virtual nesta terça-feira (27/04) enquanto fazia a apresentação remota do trabalho, o professor fala sobre sua motivação para o estudo e explica o que, de fato, significa decolonizar

Muitos dos fatores que levam à produção de conhecimento científico estão ligados aos valores pessoais dos pesquisadores, que são, antes de tudo, seres humanos dotados de história, sentimento e memória. A busca pelo esclarecimento a uma inquietação ou pela solução para um problema já vivido é a grande responsável pela evolução, não apenas tecnológica, mas, principalmente, do pensamento.
 
Sob essa ótica, a pesquisa de pós-doutorado do professor Alvaro Luiz Travassos de Azevedo Gonzaga, pelo Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), que aborda o “Decolonialismo Indígena”, é uma tentativa de entendimento sobre questões de sua própria ancestralidade.
 
À luz de recentes e lamentáveis acontecimentos – o pesquisador foi vítima de ataque virtual enquanto apresentava os resultados de sua pesquisa, na tarde da última terça-feira (27/04) – ele afirma que, se por um lado, existem pessoas que tentam calar a temática dos povos originários, por outro, existe uma série de pessoas solidárias à luta pela democracia e à causa do mês de abril, que é o mês da consciência indígena.
 
“Aqui, não fala uma pessoa, aqui existem muitas outras ancestralidades. Venho dar voz a essa ancestralidade. Um hater, uma pessoa que não consegue dominar sua fala e que precisa usar de instrumentos totalitários para tentar calar uma outra pessoa que há mais de 20 anos defende a democracia e que há mais de 40 anos vive uma luta por um mundo menos desigual, naturalmente não consegue calá-la”, expõe o docente.
 
Mas o que significa, de fato, o tema de seu estudo e por que provoca em alguns grupos de pessoas sentimentos tão conflitantes, a ponto de serem expostos sob o formato de ódio e violência?
 
O conceito de decolonialismo diz respeito a rever a história de países que tiveram colonização formal por nações ocidentais para desvinculá-la da produção de conhecimento eurocêntrica. Diferentemente de descolonialismo – que tem a ver com o fim da colonização, em si – o pensamento decolonial se refere a libertar o pensamento da forma de pensar universalizada pelo ocidente.
 
Livre docente em Filosofia do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Alvaro explica que, quando levado ao âmbito cultural dos povos originários, o decolonialismo “é o devir dos povos originários, em que pensamos no futuro pós-colonização e escrevemos uma nova história com a tinta vermelha de garantir direitos”.
 
Descendente de indígenas da etnia Kaiowá, de Dourados, o professor, que é graduado e pós-graduado em Direito também pela PUC-SP, afirma em sua pesquisa que é necessário alterar essencialmente a maneira como a sociedade encara as comunidades indígenas. “A nova interpretação sobre os povos indígenas não é mais enxergá-los como seres passivos ou meramente subjugados pelo colonialismo, mas notar que eles também participam e participaram da história, foram e ainda são protagonistas”, diz.
 
Dedicada ao avô Miguel da Costa Kaiowá, a apresentação do trabalho percorreu os oito capítulos do livro “Decolonialismo Indígena”, objeto final do estágio de pós-doutorado na UFGD, e que será publicado em breve. Nele, Alvaro expõe e dissolve sete mitos amplamente atribuídos aos povos originários. Mentiras, que segundo ele, precisam ser urgentemente desfeitas.
 
DESMISTIFICANDO
 
Além da ancestralidade, o trabalho por meio do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) deu a Alvaro a dimensão do ser indígena. “E com a pandemia, me veio uma reflexão sobre essas questões, o que me levou a buscar leituras críticas a respeito dos povos originários. Recorri ao estudo e isso resultou no trabalho de pós-doutorado”, conta.
 
Na pesquisa, o docente esclarece pontos como as denominações “indígenas” e “povos originários” serem os termos semanticamente corretos, ao contrário de “índios”. Aborda, também, o conceito padronizado que a comunidade não-indígena detém sobre o aspecto de integrantes de etnias (rosto pintado, adornos como cocares, uso de arco e flecha, entre outras caricaturas).
 
Ainda, Alvaro desconstrói conceitos preconcebidos de que indígenas são preguiçosos, violentos e, até mesmo, canibais, passando pela necessidade de se decolonizar a figura ficcional do indígena brasileiro, cunhada pela literatura. Também rebate a ideia de que os povos originários são detentores de muitas terras, num capítulo voltado à demarcação de terras indígenas e ao Marco Temporal da Terra Indígena.
 
Em outra vertente, o pesquisador enfatiza que é falsa a afirmação de que os indígenas estão desaparecendo do Brasil, já que nos últimos 50 anos há um movimento de aumento populacional em diversas etnias. Por fim, aborda como falácias os discursos sobre aspectos positivos do regime militar para as comunidades indígenas e sobre serem os povos indígenas os primeiros “brasileiros” da história.
 
A apresentação completa dos resultados da pesquisa pode ser visualizada em https://www.youtube.com/watch?v=DQ24lRlqXRs.
 
RELAÇÕES DE DOMINAÇÃO
 
Supervisor da pesquisa de pós-doutorado de Alvaro, o professor da Faculdade de Ciências Humanas da UFGD, Thiago Cavalcante, presenciou o ataque virtual à apresentação, cuja introdução havia acabado de proferir. Estudioso em História Indígena e do Indigenismo, ele afirma que reações de ódio e violência a temas que dizem respeito aos povos originários refletem a constante luta por poder e dinheiro que permeia a relação de dominação entre as elites e os indígenas.
 
“Infelizmente a sociedade brasileira é fruto de um projeto colonialista que não foi finalizado com a criação do Estado-Nacional. Como afirmou o sociólogo Aníbal Quijano, temos um Estado independente e sua sociedade colonialista. Ou seja, as relações de dominação contra os povos indígenas e as pessoas negras continuam sendo reproduzidas por alguns setores das elites nacionais”, analisa o professor, que é doutor em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.
 
Para ele, como o trabalho de pesquisa de Alvaro propõe romper com vários preconceitos contra os povos indígenas, alguns grupos reagiram com ódio, pois seu pensamento é reacionário. “Pretendem que todos os direitos reconhecidos aos indígenas pela Constituição, especialmente o direito à terra, sejam cancelados. É uma luta por poder e dinheiro, ainda que os executores dos atos de ódio nem sempre se deem conta disso”, finaliza.

Jornalismo ACS/UFGD

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Professor Alvaro Luiz de Azevedo durante apresentação dos resultados da pesquisa de pós-doutorado
 




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